31 de maio de 2017

SER MÃE DEFICIENTE

Ser "filha deficiente" nunca foi fácil. Desde muito pequena sentia a tristeza do olhar da minha mãe. Ela não era como as outras que enfeitavam com orgulho suas meninas. Não via em seus gestos leveza em me amar.
Mas pra mim, isso era muito natural porque eu era, realmente, diferente. Portanto, não me sentia no direito de exigir a redução de sua dor.
Claro que ela queria uma filha como as outras, bonita, que corria, que pulava, que vivia.
E eu sentia pena enorme da minha pobre mãe. Por isso passei a vida inteira querendo driblar minhas limitações, pra dar um pouco de orgulho pra ela. E lutei, e lutei e lutei.
Mas a vida nos prega muitas peças e, nos seus contratempos, Deus me deu prova maior, me fez "mãe deficiente". Juro que por essa eu não esperava, apesar da alegria incomensurável do dom da maternidade, minha cabeça entrou em parafusos.
Certamente minha filha sofreria tanto quanto ou mais que minha mãe. Daí, comecei a observá-la desde seus primeiros gestos e olhares. Até na hora dela mamar eu sentia medo de me rejeitar.
E o tempo foi passando, ela crescendo e eu afundando nos subterfúgios do meu auto esquecimento. Mergulhei no trabalho pra que não tivesse tempo de que suas amiguinhas me vissem e ela embarcasse na mágoa da vergonha. Entretanto, não sentia nos seus olhinhos nem em suas atitudes quaisquer atos aversos à mim, do contrário, ela sempre fez questão de me apresentar a todos.
Apesar de tudo, eu não acreditava que fosse tão natural pra ela e passei a questionar expressamente, "filha não precisa me apresentar aos seus amigos, eles podem me achar feia". Mas ela sempre me abraçava e me chamava de linda.
Para completar minha aflição, veio a síndrome pós pólio e fiquei mas fraca e passei a ser cadeirante. Me escondo da vida cada dia mais, me recolhendo à solidão do meu quarto, destarte, minha filha não sucumbe à isso e chama suas amigas pra me conhecer, mesmo na intimidade da minha dor e vergonha ela diz "esta é minha mãe" e me beija, suas amiguinhas seguem aquele gesto de carinho.
Parece contagioso e hoje, minha mãe parece me amar também.

Em 14.05.2017.

Glaucia Pontes.

Glaucia Pontes




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